«Não é a primeira vez que me acontece - mas gostava de partilhar esta ideia trágica do tempo a passar. Porque vivemos a guardar-nos para um tempo qualquer: o tempo em que vamos ter tempo para a casa de férias, o tempo em que vamos por fim fazer a viagem sonhada, o tempo em que vamos pôr a leitura em dia, frase típicade inquérito de jornal no Verão. O tempo parece que vem sempre a seguir. Só que o tempo passa. E quando passa, passam com ele os tempos em que devíamos ler, por exemplo, algo assim: "Fazemos asneiras, somos desencaminhados, perdemo-nos. Se pudéssemos ver os nossos percursos retorcidos como uma espécie de experiência, sem desejar uma segurança impossível - nada de interessante acontece sem ousadia - , talvez pudesse ser alcançada qualquer espécie de apaziguamento. Claro que podemos fazer experiências com a nossa própria vida. Mas talvez não o devêssemos fazer com a vida dos outros." Queria ter lido isto há uns anos. Teria sido útil. Li agora, e serve-me de menos. Mas a maior estupidez da juventude e dos anos pré-trinta é mesmo essa: a ilusão do "tempo para tudo". O tempo que se pode gastar, ou usar, ou passar, ou "tipo viver" como dizem os nossos filhos. Eles não sabem, mas...
   ... Esqueçam lá isso. Não vai haver. Vivam já. Aproveitem já. Gozem agora. Não usem a crise como pretexto para adiar, nem a miséria como desculpa para a arriscar.»

Pedro Rolo Duarte
Revista LuxWoman, Dezembro 2011