29 dezembro 2011

Pela primeira vez, Mariana, sentiste o toque do giz...

          « Foi em setembro que te conheci, Mariana.

       Lembro-me, Mariana, que estavas sentada na tua cadeira de rodas, já ultrapassadíssima, na fila da frente. Tinhas graves dificuldades de aprendizagem e como se isso ainda não bastasse, estavas presa àquela cadeira.
      Também tu tinhas medo! Tinhas medo da tua incapacidade física, tinhas medo de te expores, tinhas medo de responder as questões e falhar... falhar novamente, já não te bastava aquela cadeira. Aquela maldita cadeira que te separava da vida, que te impedia de sonhar, que te impedia de correr, de ires atrás de uma vida que supostamente, segundo as leis da natureza, seria a tua. 
      Mais uma vez fiz o exercício da inversão e não gostei do que senti! Imaginei-me da tua idade, com a tua condição física, imaginei o que poderia sentir, imaginei uma esperança limitada, umas expectativas frustradas. Levantei-te e muito pacientemente, passo a passo, quase percorrendo uma eternidade, levei-te ao quadro muito agarrada a mim. 
     Amparei-te e tu, pela primeira vez, sentiste o toque do giz, pela primeira vez sentiste a emoção de escrever no quadro. Pela primeira vez, estiveste em pé, de igual para igual. Pela primeira vez, sentiste-te o "quase" firmamento das tuas pernas e por momentos sentiste a magia de todos te aplaudirem. Foi um momento extraordinário para todos nós, sobretudo para ti. Tu sorriste!
     E como não queria defraudar os meus futuros alunos (mesmo que nessa altura não fosse necessária qualquer formação) iniciei a minha especialização em ensino especial, tinha urgência de abraçar não só emocionalmente mas também cientificamente este mundo que um dia me assustou.
      No ano seguinte... no ano seguinte... esperavam-me outros "meninos/jovens especiais", sem eu o saber "já estava escrito nas estrelas". »

       Este pequeno texto é um excerto de um artigo de opinião de Manuela Cunha Pereira*, publicada no site Educare. Partilhá-lo, significa partilhar sentimentos que todos nós, professores, sentimos, especialmente os que trabalham diariamente com alunos especiais. Quando o li, reconheci as minhas próprias motivações para enveredar por este caminho e espero poder ajudar muitos "meninos/jovens especiais" com esta pós-graduação.
     
        Um bem-haja a todos os que me apoiaram e apoiam nesta jornada!


Para ler a crónica, visite o site EDUCARE ou a minha página Outras reflexões

*Manuela Cunha Pereira é professora especializada em Educação Especial e autora do livro Autismo - Um perturbação pervasiva do desenvolvimento . É Presidente do Conselho Geral do Agrupamentos de Escola de Gondifelos e mentora e formadora/dinamizadora dos projetos "Escola de Pais Especiais" e "Sala de Aula Desenvolvimental - Crianças Especiais". Frequenta atualmente o mestrado em Educação Especial.

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